Estou em Bruxelas. Vivo em Bruxelas. Respiro o ar de Bruxelas. Gosto de cá estar e ao mesmo tempo não gosto. Gosto da cidade “à minha medida”, gosto de ouvir várias línguas na rua, gosto do cheiro a frites e de saber que deixei as dietas platónicas em casa.
Gosto de abrir a porta da casa (but not yet a home) e sentir o frio na ponta do nariz, a dizer-me bom-dia e a dar-me energia. Gosto de percorrer as centenas de metros que me separam do Parlamento a pé, devagar, e a sorrir, como no primeiro dia. Gosto de dizer “bonjour” nas lojas com o mesmo sorriso, o sorriso apalermado de quem é estrangeiro e gosta de se inebriar nos novos cheiros, imagens e sensações que encontra. Gosto de ver os parques e cheirar o verde. Gosto de fugir à rotina que tinha em Lisboa e construir uma rotina nova, só minha, novinha em folha.
Gosto de não ter televisão. Gosto de viver sem grilhetas, nem sufocos. Gosto do cheiro a pão que vem do café do senhor Garcia logo pela manhã. Gosto de chegar ao trabalho e dizer “hello” em várias línguas. Gosto de escrever conteúdos, gosto de trabalhar, gosto de sentir que sou útil. Gosto de ser estagiária no Parlamento Europeu.
Gosto especialmente de duas sensações. O embevecer-me a olhar pela webcam para o meu “marido”, sentir a saudade a apertar. Gosto de ser portuguesa e ter o aperto da saudade no coração, faz-nos saber o que é estar vivos.
E, em segundo lugar, gosto de redescobrir o meu “mano” em diferentes circunstâncias. Gosto de comer batatas fritas num cartucho de papel acompanhadas de molho tártaro e falar sobre as nossas esperanças e medos. Gosto de descobrir uma pessoa tão racional e controlada que se encontra nos meus antípodas. Um pouco como a Carla (ver post anterior) consegue ser para mim, às vezes. A balança que me dá balanço e âncora ao mesmo tempo.
Não gosto de estar longe da maninha. Não gosto de não a abraçar 500 vezes por dia. Não gosto de não ter máquina de lavar e de não poder ir passear para a praia. Não gosto da distância dos belgas e da falta das boas maneiras do dia-a-dia.
Não gosto do artificialismo do networking e do sorriso interesseiro. Não gosto de vampiros que comem tudo. Não gosto de certas coisas de que me vou apercebendo nos bastidores. Mas gosto de me manter idealista e convicta, apesar de tudo.
Mais importante, não gosto do lost in translation. Não gosto de ter deixado o que era para trás, no português do dia-a-dia. Não gosto que me faltem as palavras, seja para dizer agrião em inglês, como para dizer vinagre em francês. Não gosto de só ter neste momento exemplos alimentares.
Não gosto de deixar as minhas convicções arrebatadoras e entusiasmadas encostadas à prateleira enquanto faço conversa de circunstância. Gostei de falar com a Rafaela sobre a precariedade no jornalismo e relembrar que há que manter a esperança de luta. E falar disso em português, pois claro.
Gosto de falar com o Mário sobre tudo e mais alguma coisa. Gosto de fazer 125 perguntas sobre a União Europeia numa só noite. Mais uma vez, em português.
Aaah, friso… odeio que alguma coisa fique lost in translation. Ideias, piadas, fait-divers ou argumentos políticos… Odeio!
E, para terminar, gosto de viver sozinha, gosto de descobrir novas coisas dia após dia e sentir que quebrei com a estagnação que me cortava a respiração todas as manhãs. Gosto de, mesmo amando Bruxelas com todo o fervor dos recém-chegados, saber que deixei aí a cidade mais bonita de sempre, a minha Lisboa…e de ter a certeza que para as suas sete colinas irei voltar.
Post-scriptum: sei que há muitas referências neste palavreado todo que podem não alcançar por completo. Nomes, situações, lugares. Perguntem o que querem ver esclarecido. Comentem. Terei todo o GOSTO em explicar-vos ao detalhe o que me tem movido e prendido a esta cidade.